O Centro de Beltrão, e o mundo dentro dele. - Ferreira Leite Advocacia

O Centro de Beltrão, e o mundo dentro dele.

 

*por Pedro Leite

O calçadão beltronense foi criado em 1988, inspirado no desenho do calçadão de Copacabana, que por sua vez foi inspirado no calçadão da Praça do Rocio em Lisboa. Dizem que as pedras pretas e brancas do calçadão de Copacabana foram importadas diretamente de Portugal, sendo a pedra branca calcita e a negra basalto. A procedência e a qualidade das pedras beltroneses ainda não sei, mas deve constar dos arquivos de licitações da prefeitura dos anos 1987/1988.

Em Lisboa o desenho ondulado em preto e branco representa o encontro das águas doces do Rio Tejo com o Oceano Atlântico. No Rio de janeiro, cidade das curvas, o calçadão representa as ondas do mar, e em Beltrão, ainda não sei.

Mas para não ficar repetindo que nada sei sobre o calçadão beltronense, vou escrever o que eu penso sobre esse famoso trottoir.

Diariamente centenas de pessoas atravessam o calçadão beltronense e muito poucos percebem que estão interagindo com uma obra de arte ou algo similar. Na verdade são tantas as distrações que mal temos tempo para apreciar os 15 frisos de pedras rigorosamente simétricas. Hippies, índios peruanos, anunciantes de casas noturnas com suas potentes caixas de som, feirantes, ambulantes, revendas de automóveis, entidades, taxistas, e até profissionais do sexo fazem da Praça Eduardo Virmond Suplicy um gabinete presidencial.  

Palco de comícios e encontros religiosos, a praça é, sim, um lugar de todos. Porém com o tempo, e por força da repetição, a praça vai sendo degradada e, pedra por pedra, vai perdendo a forma.

As ondas alvinegras que antes causavam vertigem nos mais velhos e que atiçavam a curiosidade das crianças, hoje, parecem um mosaico sujo repleto de falhas e de rebocos de cimento. Quem atravessa a praça diariamente, como eu, tem de desviar das pedras que rolam soltas e são chutadas de lado a outro por jovens que ziguezagueiam atrás de seu Pokémon GO. Sim, o praça é de todos, até deles.

Dizem que a Muralha da China que também é arte e foi considerada uma Maravilha do Mundo, hoje tem apenas 1/3 do seu tamanho original. O resto foi depredado e roubado para a construção de casas e muros. Assim está nosso calçadão, sendo lentamente consumido pela ignorância de seu usuário, que muitas vezes retira as pedras sem devolvê-las ao local de origem, ou, quando devolvem, desrespeitam o desenho original.  

No dia de hoje 16/12/2016, atravessando o calçadão para ir ao trabalho, me deparei com uma equipe com britadeiras e marretas retirando pedras para instalar um toldo gigantesco. Perguntei se tinham autorização para depredar o patrimônio público e se iriam recolocar as pedras depois do evento que ocorrerá neste final de semana. Simplesmente me perguntaram o usual: "quem você (pensa) que é" e, quanto às pedras, "não vamos recolocar, pois não tem como recolocar". "Como vamos recolocar?"

Esssa pergunta vai ao cidadão beltronense: O que voce prefere: conservar e valorizar o calçadão ou depredá-lo de vez?

Lembre-se: O calçadão é um património público contruído e mantido com o dinheiro do munícipe. E, segundo o código Penal Brasileiro (Art 163), é crime "destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia". Sendo este crime qualificado quando cometido contra o patrimônio da União, Estado, Município.

E aí, vamos deixar impune?

 

Pedro Henrique Leite, advogado em Francisco Beltrão.